24 dezembro 2009

Crônica do Natal Caipira


Crônica do Natal Caipira
Aldemar Paiva

Eu não gosto de vancê, Papai Noé!
Tamém não gosto desse seu papé de vendê ilusão pra tar da burguesia.
Se os meninu pobre da cidade soubessem o desprezo qui o se tem pelos humirde,
pela humirdade eu acho que eles
jogava pedra em sua fantasia.
Você talvez vancê nem se alembra mais.
Eu cresci, me tornei rapaz, sem nunca me esquecê, daquilo que passô.

Eu lhe escrevi um biete, pedindo um presente. A noite
inteira eu esperei contente,
chegou o sor, mais vancê
num chegou.
Dias depois, meu pobre pai, cansado, me trouxe um
trenzinho véio, enferrujado, e me ponhou ansim na
minha mão e me oiando baixinho me falou: toma, é pra
vancê, foi papai noé que mandou. E vi quandu ele
adisfarçou umas lágrima cum a mão.
Eu alegre e inocente nesse caso, pensei que o meu
biete embora cum atraso tinha chegadu em suas mão, no fim do mês.
Limpei ele bem limpado, dei corda, o trem partiu, deu
muitas vorta, meu pai então se riu e me abraçô pela urtima vez.

O resto, eu só pude cumpreender quando cresci e
comecei a ver as coisa com a realidade.
Um dia meu pai chegou ansim, cum quem tá cum medo e
falou pra mim: "Me dá aqui aquele seu brinquedo! Daqui!
Vou trocá por outro na cidade". Entônce eu entreguei
pra ele o meu trenzinho quase a soluçá.
E, como quem não quer abandoná um mimo, um mimo que
lhe deu, quem lhe qué bem, eu supriquei medroso: "ô
pai eu só tenhu ele! Eu num quero outro brinquedo, eu
quero aquele. Por favor pai, num vá levá meu trem?"

Meu pai calô e pelo seu rosto veio descendo uma
lágrima que, inté hoje creio, tão pura e santa ansim só Deus chorou!
Ele saiu correnu bateu a porta, ansim como um doido varido e minha mãe gritou:
"Pra ele: "José!" Ele num deu
orvido. Foi embora e nunca mais vortô.

Vancê, Papai Noé, vancê me transformou num homem que
hoje a infância arruinô. Sem pai e sem brinquedo.
Afiná, dos seus presentes, num ai um que sobre da
riqueza do menino pobre que sonha o ano inteiro com a
noite de natá.

Meu pobre pai coitado, mar vestido, pra num me vê
naquele dia desiludido,
pagô bem caro a minha inlusão. N
um gesto nobre, humano e dicisivo, ele foi longe
demais pra me trazer aquele lenitivo, tinha robado aquele trem do filho do patrão.

Quando ele sumiu, pensei que tinha viajadu, no
entanto, minha mãe despois deu grande,
me contou em
pranto que ele foi preso coitado e tranformadu em réu.
Ninguém pra absolvê meu pai se atrevia.
Ele foi definhando na cadeia, inté,qui um dia, Deus entrou na sua cela e o libertô pro céu.


15 setembro 2009

Gente aqui da terrinha. Enúbio Queiroz é de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, e tem a virtude de agradar aos ouvidos mais simples e aos mais refinados.


14 setembro 2009

Canga do tempo...

Para entender melhor a história do "Rubão", Leiam e ouçam Canga do Tempo. A letra é de José Fortuna e Paraíso e foi interpretada por duplas como João Mulato e Douradinho e Lourenço e Lourival.



Canga do Tempo
José Fortuna e Paraíso

Com a canga de madeira os bois carregam
A carga no velho carro em seu vai e vem
Com a canga do meu destino eu carrego a vida
E a vida carrega as dores que o mundo tem

As dores vêm de meus sonhos despedaçados
Estrada esburacada que em mim ficou
Por onde puxei meu carro de amor desfeito
Até que a canga do tempo me calejou

Todos temos nossa canga mas nós não vemos
Puxando a pesada carga da solidão
Até que o carro da vida um dia pára
No lamaçal sem saída do coração

Canga de madeira forte foi desgastando
Pelas estradas batidas desses sertões
A canga do meu destino é bem mais dura
Porque foi feita por muitas ingratidões

Sobras de amores ficaram pelos barrancos
Recordações se perderam nos areiões
Ficou o pó da saudade no cabeçalho
No choro das minhas mágoas nos seus topões

Todos temos nossa canga mas nós não vemos
Puxando a pesada carga da solidão
Até que o carro da vida um dia pára
No lamaçal sem saída do coração

13 setembro 2009


Aprendi a contar histórias de tanto ouvir as do meu pai. E ainda hoje, apesar da distância e do tempo cada vez mais minguado, ainda me emociono com as histórias singulares do homem mais importante da minha vida...

Há alguns dias meu pai me enviou a história aí embaixo sugerindo que eu a "melhorasse" para publicar no blog. Leiam. Vocês vão concordar que não dava para tirar nem uma vírgula dessa história...


Recordação de Dois Carreiros

Década de 70. Devia ser mais ou menos 1971, 1972, talvez 1973. Final de ano, eu de férias em casa. Ou melhor, na casa de pai e mãe, né? Ali, de "morada mesmo", nunca mais voltei. Saí pra estudar e, como sempre acontece, bati asas e voei, voei... E nunca mais (de morada) voltei.

Isto se passou num sítio lá nas Minas Gerais, município de Iturama, Córrego da Lama. Meu pai precisou sair e me deixou encarregado de receber um gado que ele havia comprado e seria entregue ali no sítio por um amigo nosso, o Armando. Eu teria de receber, contar o gado para conferir o número de reses entregues e depois disto, levá-los na “aguada” para beberem e irem para o pasto. A aguada era uma represa (até grandinha) que havia no fundo de casa. Ela abastecia o pasto que o gado recebido ficaria e o piquete dos bezerros das vacas leiteiras.

E assim foi feito: gado recebido e conferido, fomos tocando o gado até a dita aguada. O gado era constituído quase que só de vacas destinadas a engorda para o abate. Mas ali no meio veio uma velha junta de bois de carro, dois bois comuns, mestiços, sem raça definida. Um amarelo e o outro baio (branco).

Por cima da casa onde morávamos passava uma estrada de acesso às fazendas vizinhas. Por uma destas coincidências incríveis que a vida nos impõe para nos ensinar algo, justamente quando os dois bois carreiros se aproximavam da água, nos chega o som de um carro de boi cantador, eixo de pau, que ia transitando carregado de madeira para cerca (se o carro não estiver pesado, ele não canta, pois o atrito entre as madeiras do carro é leve).

Ao ouvir o som dos carros os dois bois estacaram na hora. O boi baio escutou um pouco, mas as recordações não deveriam ser muito boas, então caminhou até a água e foi beber. Porém o boi amarelo torceu o pescoço, virou e abaixou a cabeça em direção à estrada de onde vinha o som do carro cantado. Ficou escutando o carro cantar, até o som praticamente se tornar imperceptível para nós, o que deve ter demorado alguns bons minutos. Só então ele voltou a cabeça para a posição normal, caminhou até a água da represa e foi beber.

Aquilo me marcou profundamente. Mas somente agora, já no ocaso da vida, é que realmente avalio tudo o que deve ter passado na cabeça daquele pobre animal – quanta luta, quanta ponta de ferrão no corpo, quanta força. Me lembro de alguns animais que chegavam a ajoelhar de tanta força fazer, transportando o “progresso” da época, para agora receber como aposentadoria um lugar lá no frigorífico e ainda servir de pasto a quem eles tanto ajudaram.

Assim também tem sido a vida da gente... As vezes machucados, as vezes machucando outros para obter um pouco de poder. Uma riqueza que é tão ou mais efêmera que a própria vida que passou. E passa tão depressa que nem nos damos conta – quando acordamos já estamos velhos, na hora de ir para o “frigorífico”...

"Rubão" Beluzzo Ribeiro

27 julho 2009

Enquanto o show não começa!

Na próxima sexta, 31 de julho, o Sesc de Rio Preto faz uma homenagem a Zé Fortuna com a dupla Mococa e Paraíso.

Vou estra na primeira fila para ouvir Paineira Velha. Mas enquanto o show não começa, você pode matar a saudade junto comigo:

Paineira velha fiel amiga
Nossos destinos são sempre iguais
Se estou contente você floresce
Quando eu padeço suas flores caem
Nascemos juntos paineira velha
Vamos morrer nesta união
De vossos galhos quero uma cruz
De sua madeira quero caixão


20 julho 2009

O incrível Hulk


Há quem diga que criança tem um anjo a mais. E deve ter mesmo. O meu anjo tinha até nome: Hulk. Verdade gente! Não, ele não era verde não. Mas era forte, bravo e parecia uma sombra – aonde eu ia, lá estava ele logo atrás.

O Hulk foi meu primeiro cachorro e minha primeira e única babá. Era um legítimo “tomba lata” e o melhor de todos os cachorros. Eu escolhia onde a gente ia “brincar” e pronto: nem galinha chegava ali perto. Uma vez, enquanto eu brincava distraída, ele saiu correndo e latindo para avisar minha mãe que uma cobra estava se aproximando. Foi o herói do dia e mais uma vez, meu anjo da guarda.

Como todo anjo ele tinha uma paciência ímpar comigo. Agüentava banho de areia, orelha puxada, coisa amarrada no rabo... Nem quando eu resolvia fazer o coitado do Hulk de “cama” ou “cavalinho” ele se zangava.

Mas isso faz muito tempo. Já ouvi tantas histórias contadas na família sobre o Hulk, que já não sei mais o que são lembranças e o que faz parte da minha imaginação. E todo mundo tem uma história sobre ele: meus pais, avós, tios... Porque ele era da família também entende?

Aí hoje, Dia do Amigo, deu saudade desse amigo tão querido que um dia saiu para dar uma volta e não apareceu mais. Mania de anjo né? Eu tenho prá mim que o Hulk tá por aí, pajeando outra menininha...

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Na foto, o pessoal de casa e eu, ainda de fraldas, batendo palmas para meu melhor amigo...

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Tem muito cachorro famoso por aí. Mas entre os caipiras, um é mais famoso que os outros: Pitoco. A letra de Nhô Bentico (Abílio Victor) foi eternizada por Lourenço e Lourival, e conta a emocionante história de um cachorrinho que foi mais que amigo, foi herói.

Pitoco era um cachorrinho
qu'eu ganhei do meu padrinho
numa noite de Natá
era esperto, muito ativo,
tinha dois zóio bem vivo,
sartando pra-cá, pra-lá.

Bem cedo me levantava.
Pitoco que me acordava
c'os latido, sem pará,
me fazia tanta festa,
lambia na minha testa,
quiria inté me bejá.

Nos dumingo, bem cedinho,
pegava meu bodoguinho,
os pelote no borná.
Pitoco corria na frente,
dano sarto de contente,
rolano nos capinzá.

Aquele devertimento
de grande contentamento
ia inté no sor entrá.

Era dumingo de mêis
e dia de Santa Ineis:
tinha festa no arraiá.
Minha mãe, as criançada
tudo de rôpa trocada,
na capela foi rezá;
fugino por ôtra estrada
c'o Pitoco fui caçá.

Hoje, dói minha concência,
pra morde a desobidiência.
Pitoco latia... latia,
mostrano tanta alegria,
sem nada podê cismá;
i eu tacava um pelote,
fazeno virá cambóte,
um pobre cara-cará.

Pitoco me acumpanhava;
de veis in quano sentava
e quiria adivinhá...

De repente fiquei fria
Gritei pr'a Virge Maria,
que pudia me sarvá.
Uma urutu das dorada,
num gaio dipindurada
tava pronta pra sartá!

Pitoco ficô arrepiado,
ficô c'o zóio vidrado
e deu um sarto mortá:
se cumbateu c'a serpente,
repicô tudo de dente,
mais num pôde se escapá.

Pitoco morreu latindo,
os zóio vivo, tão lindo,
foi fechano devagá;
parece qu'inté se ria
da minha patifaria
de num podê le sarvá.
E neste mundo tão oco,
unde os amigo são pôco,
despois que morreu Pitoco
nunca mais tive outro iguá!

22 junho 2009

"Vai ouvindo..."

Tem gente que gosta de contar histórias. E tem gente que "sabe" contar histórias, como o Paulo Freire, que tem a viola mais bem temperada que eu conheço! Como diria o próprio Paulo, vai ouvindo...

01 abril 2009

A poeira do século

Tudo bem que as coisas estão mudando. Mas livro sem papel? Eu sou das antigas. Adoro livrarias, sou rata de biblioteca e apaixonada por aquele cheiro de livro velho que só os sebos têm.

Tudo bem que através do computador, neste exato minuto, você tem à disposição mais informações que todas as bibliotecas que freqüentei a vida inteira. Mas não dá... Não troco a sensação de ter um livro nas mãos. E aí, sempre que sobra um tempinho, lá vou eu (com lenço no bolso) para o sebo*. Uma hora depois, invariavelmente, começo a espirrar como louca. Saco o lenço do bolso e pronto! Me perco de novo no meio da poeira.

Entre um espirro e outro achei um dia desses uma publicação sobre desmatamento. Um trecho me chamou a atenção: poucas coisas são tão assustadoras quanto ouvir uma árvore cair dentro da floresta. O barulho é parecido com o de um trovão. Espanta pássaros, macacos e os serradores, que correm em disparada. Ao cair, a árvore leva consigo outras cinco ou seis, presas a ela por cipós. Também morre toda a vegetação no lugar onde a árvore cai.

O Seo Matos, que é meio poeta e sempre está ali no sebo para disputar algum livro comigo, se aproximou para ver se o que eu tinha em mãos o interessava. Ele já conhecia o texto. Esperou eu concluir a leitura para comentar: “sabe que na época da seca quando uma árvore cai, levanta tanta poeira que fica difícil respirar. Agora olha que ironia: enquanto a poeira baixa, os serradores esperam embaixo da sombra de outra árvore...”.

Eu ainda estava ruminando o que o Seo Matos tinha dito quando encontrei numa prateleira um livro do Quintana. Achei nele o trecho de um texto que gosto muito: ah, esses livros que nos vêm às mãos (...) e que nos enchem os dedos de poeira. Não reclames, não. Esta poeira é a verdadeira poeira dos séculos.

Tirei a poeira do livro, o coloquei ao lado dos outros que havia selecionado e fui embora. O Quintana ficaria decepcionado se descobrisse que a poeira deste século é outra...




*Prá quem não tem um bom sebo por perto, anote: A Traça e Estante Virtual!

31 março 2009

“Semo porque semo, e também porque queremo"

Outro dia li essa frase em uma entrevista do Zé Mulato. Na hora não dei muita bola não, mas espia o que aconteceu...

O mês de março passou voando e foi um período “custoso” como dizem os goianos. Daqueles que a gente acorda cedo demais, dorme tarde demais, engole a comida e vai cronometrando cada segundo do dia para não perder tempo em nada... Aí o mês passou num tiro e eu nem vi.

Fui reclamar com uma amiga que a vida estava corrida demais e não sobrava mais tempo para fazer o que eu gosto e na hora ela rebateu: “a vida da gente só é corrida porque a gente deixa ficar assim Flá”. Vichi... Fiquei azeda na hora! Como assim “porque a gente deixa”? Fui embora torcendo o nariz para aquela conversa quando me vem o Zé Mulato prá arrematar a prosa: “semo porque semo, e também porque queremo”. E não é?

Tanta correria para trabalhar mais, ganhar mais dinheiro, comprar mais coisas para depois (só depois!) curtir a vida. E quem foi que disse que a gente não pode ir aproveitando desde já? "Gente" é um bicho besta mesmo viu...

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Prá comemorar as águas de março que eu espero o ano inteiro e o fim da canseira deste mês, um pouquinho de Tom Jobim...

“É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
(...)
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração”

24 março 2009

Todas as Vidas

"Nhá Xica", pintura de Almeida Júnior, 1895

Todas as Vidas


Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho, olhando para o fogo.
Benze quebranto. Bota feitiço... Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro. Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mima lavadeirado Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso d'água e sabão. Rodilha de pano.
Trouxa de roupa, pedra de anil.
Sua coroa verde de São-caetano.

Vive dentro de mim a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola. Quitute bem feito.
Panela de barro. Taipa de lenha.
Cozinha antiga toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda. Cumbuco de coco. Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim a mulher do povo.
Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada,
sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharada.

Vive dentro de mim a mulher roceira.
Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos, seus vinte netos.

Vive dentro de mim a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada, tão murmurada...
Fingindo ser alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida - a vida mera das obscuras!

26 fevereiro 2009

Cheiro de história nova


Por muito tempo o Luiz foi melhor amigo. Destes que a gente conhece quando ainda é criança e que crescem do nosso lado, nos conhecendo melhor que a gente mesmo. Foi com o Luiz que eu aprendi que alguns dias têm cheiro diferente.

O tal “cheiro” era um cheiro que só ele sentia. De vez em quando, sem que nada de especial tivesse acontecido, ele olhava pra mim e dizia: “tô sentindo cheiro de história nova”. Aí eu ria, ia para o meu canto e escrevia. Nestes dias eu escrevia direto, sem apagar nada. Só parava quando me sentia mais leve, quando a história inteira tinha saído de mim.

Enquanto isso o Luiz ficava fazendo cálculos, contas e progressões aritméticas. Uma vez me disse que nós dois gostávamos de vírgulas – eu nas palavras, ele nos números. Mas isso já faz muito tempo, quando eu ainda nem imaginava que ia viver disso: histórias, palavras e vírgulas.

Nunca tinha sentido esse tal “cheiro de história nova” até que hoje me lembrei do Luiz enquanto lia o e-mail do João Molento (outro grande amigo que sempre passa por aqui) me cobrando histórias novas. Pela primeira vez senti o tal cheiro que acompanhou minhas histórias de menina. Aí aproveitei para mudar um pouco a cara do blog e colocar coisas novas aqui. E aposto que o Luiz está dizendo agora com o sorriso no canto da boca: “tô sentindo cheiro de história nova”.

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Falando em cheiro, deu vontade de ouvir “Cheiro de Relva”, um clássico da música sertaneja. Foi escrita há 27 anos pelo compositor Dino Franco, o primeiro a dar voz à música com o parceiro Mouraí, que também sabiam: há dias com cheiro diferente. Um cheiro que só algumas pessoas sentem...

Como é bonito estender-se no verão
As cortinas do sertão na varanda das manhãs
Deixar entrar pedaços de madrugada
E sobre a colcha azulada, dorme calma a lua irmã

Cheiro de relva trás do campo a brisa mansa
Que nos faz sentir criança a embalar milhões de ninhos
A relva esconde as florzinhas orvalhadas
Quanse sempre abandonadas
Nas encostas dos caminhos
A juriti madrugadeira da floresta
Com seu canto abre a festa
Revoando toda a selva
O rio manso caudaloso se agita
Parecendo achar bonita
A terra cheia de relva

O sol vermelho se esquenta e aparece
O vergel todo agradece pelos ninhos que abrigou
Botões de ouro se desprendem dos seus galhos
São as gotas de orvalho de uma noite que passou